quinta-feira, 26 de março de 2015

Quem sou eu?

Olá, caros blogueiros e internautas. Meu nome é Daniel Porto, tenho 23 anos, faço pedagogia na USP-SP e não concordo com grande parte das coisas concordadas. Nesse blog, discutirei, de diversas formas, a questão da educação no Brasil e no mundo, bem como a ideia instituída de educação. A primeira abordagem que eu gostaria de fazer é sobre a educação em si. Mas, para isso, preciso falar sobre mim. Vocês precisam saber quem fala, para entender o que este falante quer dizer com a sua  fala.

Eu sou o Daniel Porto, nascido em 19/03/1992 em Maringá/PR, e precisava fazer uma pergunta

Quem eu sou?

Fui adotado por uma família paulistana classe-média e estudei em ótimos colégios em SP. Meu pai tinha um sítio e passei minha infância nele.

Quem eu sou?

Em toda a minha vida escolar, fui chamado de preto, de neguinho. Todos meus apelidos eram derivados de preconceitos vindos da classe branca dominante. Detalhe, estudei em colégios alemães praticamente a minha vida toda

Quem eu sou?

Eu sempre fui considerado diferente. Sempre fu colocado como parte de um grupo social semelhante ao grupo dos trabalhadores de baixa renda. Quando brincávamos de "família" no colégio, eu era sempre filho do caseiro ou relacionado a alguém negro.

Quem eu sou?

Recentemente, com 22 anos, descobri minha origem. Sou, por parte biológica, filho de mãe preta , que era doméstica, e foi violentada por um homem branco. Daí eu nasci. Sou de origem  extremamente pobre, mas tive a "sorte" de ter sido adotado por uma família, como eu disse, de classe-média paulistana.

Quem eu sou?

Nunca soube me encaixar. Percebi minha origem e a tornei legítima após anos de contestação. Acreditem, nunca foi fácil ser diferente. Claro que eu tive uma imensa sorte. Nunca passei fome, nunca tive que trabalhar para me sustentar. Mas sou assim, diferente. Entrei na USP mais de 2 vezes. Hoje faço pedagogia e dou aula no Núcleo de Consciência Negra na USP e nunca me senti tão bem.

Quem eu sou?

Eu sempre fui considerado feio. Sempre fui fora do padrão estético de beleza. Não sei quem eu sou hoje. Não sei exatamente. Ganhei consciência de raça e hoje quero entender toda a questão étnico-cultural que nossa sociedade construiu.

Quem eu sou?

Me revolto a cada dia. Acho que a minha origem foi esquecida, e desvalorizada. Eu quero ser educador, como disse, mas acho que devo me entender antes de tudo. Sou essa mistura. Sou o sonho do Gilberto Freyre. Sou a Casa Grande e a Senzala. Sou o mais próximo de Brasileiro. Minha genética é uma questão de segunda fase da FUVEST.

Quem eu sou?

Eu fui chamado de negro, de sujo, de lixo a minha vida toda. Tive muito acesso ao capital cultural, e acho que sou parte do oprimido, do cara da senzala, do servo. Eu entendi a cultura europeia, e aliás, estudo ela em 90% do meu tempo. Minha Universidade é eurocêntrica. Eu talvez seja também. Mas nunca fui igual à ninguém. Eu me revolto a cada dia. Tenho espaço, tenho condição econômica. Mas sou diferente. Não sou branco. Não sou opressor. Não sou parte da minha família que me adotou. Sou o patinho feio, sou fruto de um povo destruído pela cultura branca. Resolvi me revoltar. Resolvi ser diferente. Resolvi me dedicar à resistência de minha etnia.

Quem eu sou?

Eu aprendi os movimentos e os truques da cultura dominante. Eu aprendi o que eles pensam. Eu não sou parte deles. Eu sou diferente. Um diferente bom, um diferente existente. Eu sei os movimentos do opressor, e seus planos. Eu quero mudar o mundo. Eu quero que o mundo reescreva a história.

Quem eu sou?

Meus avós teciam a roupa do antropólogo que foi nos estudar. Eu não sei de nada disso. Eu, porém, sou fruto disso. Eu acho que o mundo diz "humanidade" sem saber quem é humano. Acho que deveríamos reescrever 98% da história da humanidade pois 98% da humanidade não participou da sua formulação. Acho que descartam aqueles que mais precisam ser humanos, fingindo que eles são.

Quem eu sou?

Sou assim. Sou filho da oprimido com o opressor. Sou a contradição. Sou a pedra no sapato. Sou o pior educador que o mundo queria ter. Vou encher o saco do mundo até o último dia da minha vida. Vou falar pro oprimido que ele é oprimido, Vou acabar com o status quo, vou brigar até meu último suspiro.Enquanto alguém que não for branco tiver vergonha do que é, eu estarei lá, gritando com toda a minha voz.Essa será minha missão. Isso é educação para mim. É a crítica ao grupo dominante. É a pergunta para toda a resposta já formulada.
Eu vou fazer Paulo Freire parecer piada.

Quem eu sou?

Eu sou a falha. Eu sou o chato. Eu sou assim. Sou negro.


Bem vindos ao blog! Educação...um mistério! O que será?

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